O setor que cuida da visão não pode perder de vista o seu futuro
Opinião de Miguel Alves, consultor no setor da ótica, publicada na ÓpticaPro 276.
A escassez de recursos humanos, o imperativo da formação e a urgência de tornar a ótica numa profissão desejada pelas novas gerações.
Há um paradoxo silencioso a instalar-se no setor ótico português. Num país onde as doenças visuais afetam mais de metade da população adulta, onde a prevalência da miopia dispara entre os mais jovens e onde o envelhecimento demográfico exige cada vez mais cuidados de saúde visual, a cadeia que assegura esses cuidados enfrenta uma crise profunda e estrutural: a falta de pessoas qualificadas para a sustentar. Não se trata de um fenómeno conjuntural, nem de uma consequência passageira. É uma tendência de fundo, silenciosa, mas implacável, que está a esvaziar as óticas de profissionais experientes sem que haja, na mesma proporção, uma nova geração a ocupar os seus lugares. E se o setor não agir em conjunto, com determinação e com sentido de urgência, o custo será suportado não apenas pelos empresários, mas, acima de tudo, pelas pessoas que dependem destes serviços para ver bem e viver melhor.
O problema dos recursos humanos
Se nos perguntarmos qual é um dos maiores desafios operacionais com que o setor se debate atualmente, creio que a resposta – dificuldade em recrutar – estará no “top of mind”. Não apenas especialistas altamente qualificados, como optometristas e ortoptistas, mas profissionais com formação base tais como técnicos de ótica e consultores/vendedores de loja, com conhecimento técnico sólido. O mercado de trabalho, neste domínio, está literalmente a secar. As razões são múltiplas. Por um lado, o número de candidatos às licenciaturas e cursos técnicos da área mantém-se estagnado, ou até em queda, enquanto a procura de profissionais cresce à medida que o parque de óticas se expande e que a complexidade dos serviços prestados aumenta. Por outro lado, existem cursos/licenciaturas onde os profissionais formados têm hoje um leque mais alargado de oportunidades, dentro e fora do setor da saúde. Sendo que a ótica raramente consegue competir em termos de visibilidade, prestígio percebido ou atratividade salarial com outras áreas da saúde como a enfermagem, a farmácia ou até mesmo a medicina. Naturalmente que também não podemos esquecer a questão da regulamentação, quer da optometria quer do próprio setor da ótica.
“Um setor que não consegue atrair os jovens de hoje está, inevitavelmente, a hipotecar a sua relevância de amanhã”.
Acresce que as saídas para o exterior têm crescido. Portugal continua a exportar profissionais qualificados para outros mercados europeus, onde as condições laborais e salariais são mais competitivas. Para o setor ótico, que ainda não resolveu questões fundamentais de valorização da carreira, este fenómeno tem um impacto desproporcional.
A formação como resposta estrutural
Neste contexto, a formação não é um luxo nem uma opção. É a resposta mais poderosa de que o setor dispõe. E isto significa formação em múltiplos sentidos: formação inicial de novos profissionais, formação contínua dos que já estão no ativo, e formação avançada para elevar o patamar técnico e científico de uma profissão que o merece. A aposta na formação inicial implica trabalhar de forma mais próxima com o sistema de ensino superior e profissional. As escolas e universidades que formam optometristas, ortoptistas e técnicos de ótica talvez precisem de aprimorar a forma como fornecem os alunos ao setor. Prepará-los para enfrentarem a nova realidade do mercado de trabalho, que é exigente, altamente concorrencial e em permanente mudança e evolução, parece-me fundamental. Por outro lado, o setor empresarial tem, também, um papel fundamental. Uma responsabilidade ativa neste contexto. Não deve apenas esperar que os novos colaboradores venham em modo “chave-na-mão” prontos a desempenhar as funções na perfeição. Penso que devem estar dispostos a abrir as suas portas para receberem estudantes em formação e crescimento, através de protocolos com instituições de ensino, e proporcionarem-lhes um modelo de estágio estruturado, com a oportunidade de terem experiências profissionais em ambientes motivadores. Tudo isto contribui não só para o desenvolvimento dos profissionais, como também para a reputação das próprias empresas que abraçam e promovem este modelo e, consequentemente, para o setor em geral.
A formação contínua é igualmente crítica. A ótica evolui a um ritmo acelerado: novos equipamentos de diagnóstico, novas geometrias de lentes, novas abordagens ao controlo da miopia, novas tecnologias de contactologia, novas formas de comunicação com o cliente. Um profissional que não se atualiza fica, em pouco tempo, tecnicamente desatualizado. Neste capítulo, as associações setoriais, as empresas fornecedoras e as próprias óticas têm um papel insubstituível em garantir que a formação ao longo da vida seja acessível, valorizada e efetivamente praticada. Infelizmente, ainda permanece o pensamento de que a formação é perda de tempo ou que é lazer. Especialmente a que é realizada fora do espaço físico da loja e em horário laboral. Mas, a verdade é que é precisamente o contrário. O que é uma perda de tempo é a estagnação.
Tornar a ótica apetecível para as novas gerações
Mas há um problema anterior ao da formação: é necessário que os jovens queiram, em primeiro lugar, entrar nesta área. E aqui o setor tem um défice sério de narrativa. Penso que todos concordarão que a ótica é, objetivamente, uma profissão fascinante. Combina ciência e tecnologia de ponta com o cuidado humano e a relação de confiança com o usuário ou cliente. É uma área em constante inovação, com impacto direto e mensurável na qualidade de vida das pessoas. Um profissional que deteta precocemente sinais de glaucoma, diabetes ou hipertensão numa consulta de rotina ou um técnico que domina a geometria avançada das lentes progressivas e as escolhe e adapta ao estilo de vida específico do seu cliente desenvolve um trabalho que exige conhecimento, empatia e precisão em simultâneo. Trabalho, este, que no limite pode salvar uma vida. Basta pensar nas consequências de uma doença não detetada ou numa lente mal escolhida e mal montada/adaptada. Mas tenho a sensação de que nada disto chega aos jovens de 16, 17 ou 18 anos que estão a decidir o seu futuro. Porque o setor, enquanto coletivo, não tem comunicado esta história. A sua história. A presença nas diversas redes sociais, em feiras ou diretamente em escolas, com conteúdos inspiradores e atrativos parece-me parca e pálida. Não há rostos jovens e carismáticos que funcionem como referências para quem está a escolher uma profissão. É aqui que a mudança tem de acontecer, e tem de acontecer rapidamente. O setor ótico precisa de uma estratégia de marca coletiva, de employer branding e de comunicação dirigida especificamente às gerações mais jovens. Isso implica presença digital autêntica, testemunhos reais de profissionais satisfeitos, colaboração com escolas e plataformas de orientação profissional, e uma narrativa que coloque a ótica onde ela merece estar: entre as profissões de saúde mais relevantes, tecnologicamente avançadas e humanamente gratificantes do nosso tempo.
“A ótica não precisa de se reinventar. Precisa de se revelar. O que faz já é extraordinário, mas falta contar essa história em voz alta”.
A ótica como ator de saúde – sem complexos
Há ainda um outro combate a travar, igualmente urgente: o reconhecimento pleno e inequívoco da ótica como área de saúde especializada, com profissionais que exercem funções clínicas de diagnóstico, triagem e acompanhamento.
Há demasiado tempo que o setor tolera uma perceção pública que o reduz ao comércio de armações e lentes de sol. É certo que a componente comercial existe e tem o seu valor, mas ela não pode ofuscar o que verdadeiramente define a ótica: a sua dimensão clínica. Os optometristas e os ortoptistas realizam exames de acuidade visual, avaliam a saúde ocular, detetam e identificam patologias, prescrevem e adaptam soluções óticas de correção. Tudo com rigor científico e impacto direto na saúde do utente. A consolidação desta identidade clínica não é apenas uma questão de prestígio. É uma questão de saúde pública. Portugal tem um sistema de saúde sobrecarregado, com listas de espera longas na oftalmologia, onde os tempos médios de espera para consulta estão muito acima dos limites legais (150 dias), existindo hospitais, de acordo com dados de 2024, que excedem largamente os 300 dias. Neste contexto, onde existem cerca de 61 mil pessoas à espera de consulta nos hospitais públicos, para além do tempo legal, as óticas, com a sua abrangência territorial e a sua capacidade de acolher clientes sem marcação prévia, são um recurso precioso e subaproveitado do sistema de saúde. Mas para que este potencial seja reconhecido e instrumentalizado pelas políticas públicas, é fundamental que o próprio setor defenda esta posição com convicção e com dados. Isso implica defesa junto das entidades reguladoras, visibilidade nos debates de política de saúde e colaboração com outros profissionais de saúde, numa lógica de complementaridade e referenciação.
Um apelo coletivo à ação
O momento exige mais do que diagnóstico. Exige ação. Certamente que não será uma empresa isolada nem uma associação sozinha que vai resolver os desafios que o setor enfrenta. É necessária uma convergência de vontades: das empresas, das associações representativas, das instituições de ensino, dos profissionais individualmente considerados e das entidades públicas com responsabilidade na regulação e no financiamento dos cuidados de saúde. Portugal tem todas as condições para ter um setor ótico moderno, dinâmico, reconhecido e com recursos humanos suficientes e bem preparados. Tem profissionais com talento, empresas com ambição e uma procura crescente dos serviços que o setor presta. O que falta é decisão coletiva e a coragem de agir antes que alguém (classe ou entidade) o decida resolver de forma irrefletida. O futuro do setor passa pelas salas de aula onde os jovens escolhem o seu caminho, pelas óticas onde os profissionais sentem, ou não, que o seu trabalho é valorizado, e pelas mesas de decisão onde se definem as políticas de saúde do nosso país.
1 Julho 2026
Opinião

