Desde o balcão ao consultório, estará a contactologia demasiado centrada no preço e pouco no valor clínico?
Artigo da autoria da Valor Visão:
Nos últimos anos, a oferta de lentes de contacto tornou-se cada vez mais competitiva. Promoções, descontos e vendas online fizeram com que o preço passasse a ser, para muitos utilizadores, o principal critério de escolha. No entanto, quando uma lente é vista apenas como um produto, perde-se a dimensão mais importante da contactologia: a prestação de cuidados de saúde como diferenciador.
Uma lente de contacto não é um artigo indiferenciado. Propriedades do material, design geométrico, características de superfície, ajuste da adaptação e a modalidade de substituição influenciam diretamente o conforto, a saúde ocular e o sucesso da adaptação1;2. A escolha da lente exige critério e não pode ser reduzida ao preço. O atendimento na ótica com conhecimento desde o balcão, as consultas de adaptação e o acompanhamento são, por vezes, subvalorizadas. Nestas consultas avaliam-se a superfície ocular, a qualidade do filme lacrimal, as necessidades visuais e o estilo de vida do utilizador, que são preponderantes para o uso de lentes de contacto.
O que diz a evidência
A literatura científica sustenta precisamente esta ideia: o valor clínico pesa mais do que o preço no sucesso a longo prazo da contactologia. Uma revisão sistemática mostra que entre 12% e 27% dos utilizadores abandonam as lentes de contacto, sendo o desconforto ocular a principal razão, responsável, consoante os estudos, por 49% a 61% dos casos. O custo surge, sistematicamente, muito abaixo na lista de motivos3. Este padrão repete-se: quando o problema de base é tratado, seja através de outra modalidade de lente, seja pela correção de uma disfunção da superfície ocular, muitos utilizadores conseguem voltar a usar lentes com sucesso, em alguns estudos até 74% dos casos3;4. Uma revisão publicada em 2026 na revista Clinical Optometry5 vem consolidar este ponto: as medidas clínicas objetivas, como a acuidade visual, não são suficientes para prever o sucesso a longo prazo. É a qualidade de vida relacionada com visão, conforto, satisfação, tempo de utilização e autonomia face aos óculos que melhor reflete se uma adaptação foi, de facto, bem-sucedida. Por outro lado, a evolução tecnológica trouxe materiais mais avançados, lentes específicas para olho seco, controlo de progressão da miopia, presbiopia e astigmatismo. Estas soluções representam um maior investimento inicial, mas traduzem-se, frequentemente, em melhor conforto, maior tempo de utilização e menor risco de complicações. O verdadeiro valor não está apenas no preço pago pela lente, mas no benefício clínico que ela proporciona.
Mudar a pergunta
Talvez seja o momento de mudar a forma como comunicamos com os utilizadores. Em vez de perguntar “quanto custam estas lentes?”, a questão deveria ser: “quais são as lentes que melhor respondem às minhas necessidades visuais e proporcionam conforto e segurança na utilização?”. A contactologia diferencia-se quando deixa de se centrar apenas na venda de lentes e passa a valorizar o aconselhamento técnico, a avaliação clínica, a personalização da adaptação, a educação do utilizador e o acompanhamento ao longo do tempo. O preço continuará, naturalmente, a ser um fator importante na decisão, mas não deve ser confundido com o valor clínico de uma solução nem ser o único critério de escolha. Na contactologia, o maior concorrente não é a lente mais barata: é o abandono das lentes. E o abandono combate-se com equipas que trabalham em sintonia com base em conhecimento e evidência. O verdadeiro valor está na qualidade da adaptação e no acompanhamento contínuo do utilizador. Desde o balcão ao consultório. É precisamente esta mudança de perspetiva, do preço para o valor clínico, que está na base do curso “Contactologia: do Balcão à Adaptação”, da Valor Visão, ministrado pela optometrista Liliana Gonçalves. O curso procura criar uma ponte entre quem está no balcão e quem realiza a adaptação clínica: proporcionar a quem tem pouca formação técnica as bases necessárias para compreender, aconselhar e comunicar melhor sobre lentes de contacto e oferecer a quem já adapta uma revisão estruturada e atualizada dos principais aspetos da prática clínica.
Referências
- Fang, M., Airen, S., Jiang, H., & Wang, J. (2021). Ocular surface microvascular response and its relation to contact lens fitting and ocular comfort: An update of recent research. Clinical and Experimental Optometry, 104, 661–671. https://doi.org/10.1080/08164622.2021.1878867
- Phan, C., Hui, A., Shi, X., Zheng, Y., Subbaraman, L., Wu, J., & Jones, L. (2025). The impact of comfort eluting agents and replacement frequency on enhancing contact lens performance. Clinical Ophthalmology, 19, 857–873. https://doi.org/10.2147/opth.s512246
- Pucker, A. D., & Tichenor, A. A. (2020). A review of contact lens dropout. Clinical Optometry, 12, 85–94. https://doi.org/10.2147/OPTO.S198637
- DeLoss, K., Reeder, R., & Brujic, M. (2025, agosto 15). Defeating contact lens discomfort. Review of Optometry. https://www.reviewofoptometry.com/article/defeating-contact-lens-discomfort
- Osae, E. A., Osei, K. A., Edwards, N. C., Wygonik, E., & Blackie, C. A. (2026). Contact lenses and vision-related quality of life: Evidence and clinical insights. Clinical Optometry, 18, 598390. https://doi.org/10.2147/OPTO.S598390
3 Setembro 2026
Opinião

