Sustentabilidade & Ótica: ver melhor, mas sobretudo ver mais longe

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Artigo da autoria de Paula Silva, integrado na nossa rubrica “Opinião AASO – Associação de Apoio à Sustentabilidade da Óptica”:

Ao longo de mais de três décadas entre a optometria e o retalho ótico, tenho acompanhado uma transformação profunda no setor. A ótica deixou de ser apenas um espaço de correção visual para se afirmar como um ponto de interseção entre saúde, tecnologia, experiência do cliente e, cada vez mais, sustentabilidade.

Hoje, a sustentabilidade deixou de ser um conceito teórico para se tornar um eixo estruturante. Esta evolução não surge isoladamente. Está diretamente ligada a tendências demográficas e comportamentais bem documentadas, como o aumento da prevalência da miopia, o envelhecimento da população e a exposição prolongada a dispositivos digitais. Estima-se que a miopia possa afetar cerca de metade da população mundial até 2050 (Holden et al., 2016), um cenário amplamente discutido na literatura científica e reconhecido por entidades como a Organização Mundial da Saúde (World Health Organization).

Em paralelo, a inovação tecnológica tem vindo a transformar a prática clínica e o serviço prestado em ótica. As lentes oftálmicas evoluíram significativamente, tornando-se mais personalizadas e adaptadas aos perfis visuais e estilos de vida dos utilizadores. A introdução de sistemas de medição e centragem digital tem permitido maior precisão no processo de adaptação, contribuindo para uma melhor adaptação e maior conforto visual reportado pelos utilizadores, embora estes ganhos dependam de múltiplos fatores clínicos e comportamentais (Charman, 2014). No entanto, é na convergência entre tecnologia, saúde e sustentabilidade que se observa a mudança mais relevante.

A inteligência artificial já integra várias áreas da saúde ocular, sobretudo na análise de imagem retiniana, com aplicação na deteção de patologias como a retinopatia diabética e a degenerescência macular. Estudos publicados em revistas como o JAMA e a Nature Medicine demonstram que algoritmos de aprendizagem profunda conseguem atingir níveis de desempenho comparáveis aos de especialistas em tarefas específicas (Ting et al., 2017; De Fauw et al., 2018). Ainda assim, estes sistemas não substituem o profissional. Funcionam como ferramentas de apoio à decisão clínica, reforçando a capacidade de triagem e diagnóstico precoce, mas exigem validação contínua, transparência e cumprimento de normas clínicas e regulamentares.

Este contexto reforça o papel da ótica enquanto ponto de proximidade em saúde visual. Na prática, observa-se uma maior integração de dados clínicos e comportamentais no acompanhamento dos utentes, com um foco crescente na prevenção e monitorização ao longo do tempo. A progressão da miopia é um dos exemplos mais evidentes desta mudança, sendo hoje abordada com base em evidência científica que combina estratégias óticas, comportamentais e, em alguns casos, farmacológicas (Flitcroft et al., 2019).

Para além dos desafios clínicos e tecnológicos, o setor enfrenta também uma pressão crescente ao nível ambiental. A indústria ótica tem vindo a integrar materiais alternativos, como bio-acetatos e polímeros reciclados, bem como práticas de produção mais eficientes. No âmbito do ecodesign, é reconhecido nas políticas da Comissão Europeia que uma parte significativa do impacto ambiental de um produto é determinada na fase de conceção, podendo, em alguns casos, representar a maior parcela desse impacto (European Commission, 2020). Isto significa que as decisões tomadas ao nível do design têm um papel determinante ao longo de todo o ciclo de vida do produto.

Leia o artigo completo na ÓpticaPro 278.

21 Julho 2026
Opinião

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