Até sempre José Maria, o mestre da ótica portuguesa

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No verão passado, ouvimos José Maria Rodrigues, ao lado da sua mulher – Manuela Rodrigues, no Podcast Lente Indiscreta. Talvez uma das últimas conversas a que tivemos o privilégio de assistir antes da sua partida. O fundador da Sociel faleceu hoje, pelas 14h00, deixando a ótica portuguesa definitivamente mais pobre.

Recorde aqui algumas das histórias de José Maria, contadas na primeira pessoa, no 10º episódio do Podcast Lente Indiscreta:

José Maria revelou a Marco Pombo e Miguel Alves, os anfitriões do podcast, como tudo começou. “Fui trabalhar para a empresa com 15 anos. Não sabia nada, mas fui aprendendo o ofício aos poucos. Aos 18, fiquei à frente da fábrica, após o falecimento de um dos antigos sócios. Era um miúdo a comandar uma equipa de quase 40 pessoas”. José Maria, quando questionado se os funcionários aceitaram de bom grado alguém tão jovem na liderança, referiu que soube fomentar muito bem o espírito de equipa. “Naquele tempo, os homens gostavam de ir beber um copito após o trabalho, antes de regressarem a suas casas. E era isso que fazíamos religiosamente. É o que se chama agora espírito de equipa”. (risos)

Estávamos nos anos 70 e José Maria recorda que, naquela época, existiam 14 fábricas de armações em Portugal, restando hoje apenas a histórica Sociel. “Produzia-se e vendia-se muito produto, a China ainda não dominava o mercado”.

A dada altura, após uma “zanga” com o patrão, decide deixar a Sociel, mas acaba por regressar “a casa” e adquirir, juntamente com o irmão, 40% da empresa. “Após um ano, o patrão vendeu-nos a sua parte (60%), uma compra que valeu a pena”. Manuela Rodrigues apoiou esta decisão do marido, apesar de serem ainda muito novos na altura. “Eu tinha 22 anos e ele 28. Mas, como não o encorajar a dar este passo? A paixão dele era (e continua a ser) a ótica e a Sociel a sua outra filha, uma vez que já tínhamos a nossa filhota nessa altura”. José Maria acrescenta, emocionado, que a Sociel faz parte da sua vida. Aliás, “a Sociel é a minha vida, confunde-se comigo. Todos os dias vou à fábrica e chego antes das 9h, exceto quando tenho de viajar para ir a feiras lá fora ou estou de férias”.

“Entrar na Sociel é como ir a Veneza”

Quem o diz é Marco Pombo, justificando a sua afirmação: “Veneza é daquelas cidades do mundo que nos faz sentir dentro de um filme. E entrar na Sociel é viajar no tempo, desembocar num espaço peculiar… cada máquina, cada ferramenta, cada processo tão artesanal… é tudo muito bonito e especial. Na Sociel, cada parede conta e respira a história da ótica”. José Maria afirmou mesmo que recebem frequentemente clientes e outras pessoas interessadas em aprender esta arte ou apenas para visitar a fábrica, como se de um museu se tratasse. E Manuela acrescentou que o marido tem um prazer genuíno em mostrar o seu trabalho, ajudar quem quer aprender esta arte e partilhar o seu conhecimento. “Não tenho nada a perder, só a ganhar”, confessa o interlocutor.

Com clientes em todos os cantos do mundo, afirmam que hoje já não produzem tantas peças por dia, mas cada armação é única e personalizada, feita à mão, podendo levar até cinco dias para estar concluída. “Fazer óculos é uma obra de arte, é como criar uma joia. Não se pode comparar com o produto asiático”, enfatizam.

O mercado da ótica em Portugal

José Maria, ao longo do seu percurso, passou por muitas fases. Viu os grupos de ótica a nascer e outros estrangeiros a instalarem-se em Portugal, viu óticas a vender caro e a apostar no luxo e outras a afirmarem-se como low-cost. “Creio que os óticos estão perdidos neste momento. O mercado está sobrelotado, o nosso país não tem dimensão para albergar tantas óticas; 2.400 óticas para 10 mil habitantes é demasiado”.

Mais para o fim da conversa, o fundador da Sociel confidenciou que está já a pensar na passagem de testemunho, para, quando se reformar, ter a certeza de que a “menina dos seus olhos” fica em boas mãos. “A nossa filha trabalha noutra área e, apesar de nos ajudar muito na empresa, muito provavelmente não será ela a dar seguimento ao negócio. O nosso objetivo é vender, aceitamos propostas (risos). De qualquer das formas, antes de me retirar completamente, gostaria de continuar a estar presente, não como dono, obviamente, mas como orientador e mestre. Ou seja, fazer uma sucessão gradual, para que o projeto continue a ser um exemplo no setor”.

Um homem de família – apaixonado pela mulher, pela filha e pelos netos, José Maria não esquece nunca os amigos e sente muito a falta do irmão, o seu braço direito na Sociel desde sempre. Um homem muito respeitado no setor da ótica, que segue os seus princípios, com a humildade e a perseverança que o caracterizam. Um homem feliz, que diz não acreditar na sorte. “Temos de correr atrás dela, a sorte faz-se e dá muito trabalho!”.

A equipa da ÓpticaPro expressa o seu profundo pesar pela partida de José Maria Rodrigues, cuja dedicação e sabedoria marcaram gerações e deixaram um legado inesquecível na história da profissão. Até sempre!

8 Abril 2026
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