“Os óculos são objetos que qualificam as pessoas”

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Uma das pessoas mais reconhecidas no mundo da ótica, especialmente quando falamos do conceito de óculos modernos, falou em exclusivo para Portugal à ÓpticaPro. Contador de histórias, Paolo Seminara respira paixão por uma profissão onde “o tempo voa”.

Conte-nos um pouco a sua história como pessoa e criador de óculos.

O meu primeiro trabalho foi com a fotografia de moda. Eu estava sempre presente na Feira Pitti, em Florença, um dos mais importantes eventos de moda em Itália, que pouco depois passou também para Milão. Tirei em 1969 o diploma de Ótica e depois já em Viareggio, belas senhoras…e belos homens, experimentavam os meus óculos. As pessoas queriam experimentar, mas não o faziam porque tinham vergonha. Entre 1965 e o início da década de 70, ninguém queria andar de óculos, porque as pessoas eram apelidadas de “quatro olhos”. As lentes eram de 60mm de diâmetro e não era possível criar lentes grandes. Eram pequeninas, pretas, transparentes, mas não existiam cores. Um ano volvido, comecei a ser representante de algumas marcas no norte de Itália.

Que visão tinha para o setor na altura?

Eu queria perceber o que faltava no mundo da ótica. No dia seguinte ao meu acidente de automóvel decidi que seria eu a criar os óculos, que ia começar a trabalhar por conta própria. E foi através da Pitti que fiquei a conhecer um jornal que se chamava Vogue. Se tu passavas a estar nessa revista tornavas-te famoso. Entre 1965 e 69 decidi criar três modelos, com 24 cores numa pequena localidade chamada Cadore (próximo da Áustria).  Quando cheguei a Pádua já tinha vendido toda a coleção, a 9900 liras, quando na altura o ótico mais famoso faturava 4000 liras. Eu criei cartazes de publicidade lindíssimos, estojos que mais ninguém fazia na época, as armações eram fumadas, com cores unidas e passaram a ser armações grandes e redondas, com as lentes em degradê.

A seguir quis patentear os modelos, mas não queriam colocar o meu nome na classe 9 para óticos. Então, acabei por registar as minhas criações com o nome Vogue, by Paolo Seminara. Foi a solução. Eu comecei com 5000 liras e passados 20 anos vendi um milhão e 500 mil peças. Fiquei famoso por todo o mundo ao ponto de a Ray-Ban me procurar numa das edições da feira MIDO e acabar por ser o meu distribuidor oficial nos EUA. Para mim gira tudo à volta de paixão, de trabalhar o modelo, o design. Quando tu trabalhas com paixão, tu não trabalhas, porque o tempo voa.

Como descreve atualmente os óculos modernos? Que conceito é esse?

Eu continuo a criar modelos diferentes que mais ninguém faz. Os meus modelos são grandes, finos, muito finos e leves. E são lindos, porque tornam as pessoas lindas. As armações sem as lentes permitem às pessoas perceber o seu rosto e o seu estilo. É a partir deste pressuposto que parto para a criação dos meus óculos. As pessoas sem problemas de visão querem usar óculos, porque se tornou um acessório de moda. Trabalhando na moda como fotógrafo permitiu-me conhecer tudo o que nascia a partir da moda.

Com esse pressuposto como é que uniu o conceito da moda aos óculos?

Ao trabalhar no mundo da moda eu via tudo o que nascia dela. Depois de eu criar os óculos através da Vogue, reparei que as minhas criações se tornaram importantes na moda. Marcas como a Armani, Troussard, e outras, pediam-me para fotografar os óculos com as suas criações. Eu não seguia a moda. Eu criei a moda. Nos óculos eu não segui nada, porque não havia ninguém a fazê-lo. Foi o meu instinto, a paixão pela fotografia e pela moda que tornaram um êxito qualquer cor que gostava de juntar. Os óculos eram amostras e era um delírio quando alguém olhava e via uns óculos vermelhos com uma camisa azul: porquê que não pode combinar? É a tua convicção que te diz se algo combina ou não. Se te sentes bem com o teu look, se é o correto, tu fazes a tua moda. És tu que fazes a moda e os outros seguem-na. Ao fim de 50 anos posso dizer que fiz sempre a moda e nunca a segui. No mundo da ótica isso é uma certeza. Os óculos são objetos que qualificam as pessoas.

Leia a entrevista completa na ÓpticaPro 217.

10 Agosto 2021
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