“A farmácia deixou-se ultrapassar pela óptica”

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ÓpticaPro: A classe dos ópticos anseia, desde sempre, por um sistema semelhante ao que se pratica com as farmácias.


Ricardo Silvestre Rocha: São de facto dois ramos muito análogos. As pessoas em geral ainda olham para o conselho dos ópticos com confiança, à semelhança do que acontece nas farmácias. Não se coloca sequer a perspectiva do negócio. Outra característica passa pela estreita ligação à saúde de ambos os sectores, embora nenhum dos dois profissionais possa prescrever. No fundo, o nosso público procura-nos para falar mais à vontade, já que os médicos em geral intimidam. Cria-se uma ligação de confiança, até ao ponto de pedirem a nossa opinião sobre o que o médico recomendou. Representamos o elo final da cadeia da saúde.

 

OP: O que falta à óptica para que se possa atingir o patamar das farmácias?


RSR: A farmácia tem uma associação poderosa e conta com o apoio de uma legislação que, apesar de ter sido alterada recentemente, continua a proteger o negócio. Uma farmácia só pode abrir mediante concurso público e num espaço onde não existam outras numa área de 350 metros. Deste modo, garante-se a rentabilidade dos estabelecimentos e também a sua idoneidade na venda dos produtos e no atendimento.


 


OP: É precisamente o inverso que acontece no sector da óptica…


RSR: Claro, pois se mantivéssemos um limite de ópticas por habitante, o profissional provavelmente não optaria por marcas de menor qualidade e diminuiria as suas margens de lucro em prol do cliente, com a certeza de que o seu rendimento estaria ainda assim assegurado. Da maneira como se processam as coisas, a concorrência é absurda. Aqui em Canelas a situação é tranquila, mas por exemplo em Famalicão existem demasiadas ópticas e as ‘low cost’ impõem um ritmo de preços incomportável.

 

OP: Como encara o associativismo em ambas as actividades?


RSR: As farmácias tiveram uma situação semelhante ao que se vive agora na óptica até 1965, altura em que se aprovou a denominada Lei da Propriedade da Farmácia. Já aqui, a união da classe era forte. Em 1975, estabeleceu-se finalmente a Associação Nacional das Farmácias, à semelhança da Associação Nacional do Ópticos (ANO), a partir da estrutura de um grémio. Hoje reúne 2800 associados num universo de 3100 farmácias, congregando quase toda a classe. Os restantes estão numa outra associação que equivale à ANO, sem grande expressão devido à escassez de membros.


 


OP: E em termos gerais?


RSR: A farmácia deixou-se ultrapassar pela óptica, no que diz respeito a estratégias de marketing. De facto, a falta de protecção ao negócio impeliu a uma modernização e capacidade de adaptação exemplares destes empresários. A venda de medicamentos ainda está atrasada neste aspecto, mas lá chegará.

 

OP: De que modo conseguiu lançar o Centro Óptico Bella Vista no seio da comunidade de Canelas?


RSR: Na altura em que abrimos a loja, em 2007, apostámos essencialmente numa comunicação forte, através de publicidade em autocarros, rastreios visuais e outras acções de divulgação. O efeito desse investimento ainda hoje se faz sentir. Proporcionámos também um espaço em que o cliente está à vontade, com uma exposição ampla de modelos. O balcão assume um papel secundário, já que o importante é que as pessoas se sintam em casa. Em termos de marcas, adaptámo-nos às vontades do nosso público.

 

OP: Começou pela óptica e só depois assumiu o negócio da sua formação. Porquê?

RSR: É uma resposta fácil. Para se comprar uma farmácia em Portugal há que esperar que alguém venda o estabelecimento, pois não se podem abrir novos espaços. Como se compreende, a apetência por este negócio é elevada, o que se traduz na dificuldade em comprar uma farmácia. No caso do sector dos óculos não é preciso mais que um espaço comercial. Claro que, estando direccionado para o sector da saúde, equipei a oficina da loja com aparelhos de topo e apostei em colaboradores formados, nomeadamente numa optometrista e num técnico de óptica ocular.

27 Novembro 2009
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